"Sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino."

Paulo Freire

domingo, 13 de junho de 2010

Sessão Nostalgia

Quando me formei em odontologia realizei um sonho de criança. Sabia que tinha a chance de devolver o sorriso para muitas pessoas e deixá-las mais felizes. Então tive a oportunidade de ingressar no Programa Saúde da Família, hoje Estratégia.

Minha primeira experiência foi na zona rural de São Pedro do Piauí há 30 km da sede, sem estrada e num carro nada confiável. No início era até divertido, a equipe era ótima e nem percebíamos a distância. Mas, os meses foram passando, faltava material odontológico, o consultório estava em péssimo estado, muito descaso por parte dos gestores locais, o carro que nos transportava quebrava no caminho, perdíamos a hora do almoço (quantas vezes sem almoçar!), a população não estava nada satisfeita e eu muito menos. Foi frustrante ver que o SUS que lemos não é o que temos.

Em 2004 fui trabalhar em Agricolândia, município distante 80 km da capital do Estado. Já com mais experiência e decidida a fazer diferente, aproveitei o momento de eleição municipal e barganhei com o gestor condições salubres de trabalho em troca de melhores resultados. Encontrei muitas barreiras, dentre elas a própria desconfiança da população, cansada de muitas promessas e poucas atitudes.

Envolvi-me profundamente com o serviço público, vi que era de grande importância uma gestão responsável e compromissada. No mesmo ano iniciei, com recursos próprios, um curso de aperfeiçoamento em Saúde da Família e em seguida especialização em Saúde Coletiva. Em 2005 foi nomeada coordenadora de saúde bucal de Agricolândia.

Com a ajuda de toda equipe, conseguimos mudar positivamente os indicadores de saúde. Realizamos nossa primeira Pré-Conferência Municipal de Saúde Bucal, fizemos trabalhos educativos em escolas, participávamos de semanas culturais, levávamos o PSF para os festejos (tão comuns em cidades do interior), melhoramos o acesso de pacientes com necessidades especiais ao serviço de saúde, organizamos os prontuários dos pacientes, diminuímos custos na aquisição de insumos, dentre outras ações.

Apesar de todas estas conquistas e crescimento pessoal e profissional, eu queria mais. Por isso considero o ano de 2007 glorioso. No dia onze de março me tornei mãe de um lindo garoto e realizei outro grande sonho. E uma semana antes de ter bebê prestei concurso para dentista da Fundação Municipal de Saúde de Teresina, no qual fui aprovada (Enzo me deu muita sorte!). Finalmente em 2008 no dia 11 de abril assinei meu termo de posse. Parecia até minha carta de alforria. Pois, depois de mais de cinco anos pegando a estrada para trabalhar, enfim estava em casa. Não precisava mais ficar tão longe do meu filhote, sabia que se ele precisasse de mim eu estaria lá em quinze minutos.

Confesso que no início senti um alívio, mas depois esse sentimento foi dando lugar à nostalgia. Quando trabalhamos longe de casa, nos afastamos também do nosso referencial, do nosso porto seguro que é nosso lar. Então nos apegamos àqueles que estão em situação semelhante; longe dos pais, dos filhos, dos cônjuges. Mas, mesmo distante de nossos pares a necessidade de compartilhar emoções não se extingue. É da natureza humana se envolver, dividir alegria quando estamos felizes, dar ou receber ombro amigo nos momentos difíceis. Não tem como fugir, dividimos o mesmo teto por meses ou anos, acabamos virando família.

Essa é uma das várias histórias que nascem a partir da procura da concretização de sonhos. Seja na busca de realização profissional, busca de sucesso, dinheiro, um amor, tudo produz história. E essa é uma parte da minha.

Um comentário:

  1. ...parte da história de uma guerreira!
    ps: gostei de ver o "rosa" por aqui. O blog é novamente seu! rsrs
    bjim,

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