"Sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino."

Paulo Freire

domingo, 30 de outubro de 2011

Você sabe o que é Consultório de Rua?

Com advento da Estratégia Saúde da Família, nós (profissionais da saúde pública), aprendemos (ou estamos aprendendo) a nos preocupar em atender as demandas de nosso território, viabilizando o acesso da “nossa” população a todos os serviços oferecidos pelo Sistema Único de Saúde.

Para os apaixonados pela saúde pública, isso parece até um sonho. Imaginar que poderemos dar um atendimento de qualidade e integral é o máximo! Filosoficamente a ideia de dividir o território como sinônimo de repartir o cuidado e também responsabilidades é muito boa, mas na prática isso tem deixado muita gente sem atendimento, sem acesso aos serviços básicos.

Essa coisa de esse é meu e esse é teu (paciente), fica parecendo que não estamos falando de gente. O que fazer quando o cidadão não tem uma equipe de saúde da família em seu território? Mas isso já é uma outra discussão, pois eu quero ir além, quero falar sobre aquele que não é considerado nem cidadão, quanto mais paciente de uma área adstrita. Como é o caso das pessoas em situação de rua ou moradores de rua (MR).

Em conversa recente com quem entende do assunto, me dei conta que existe uma parcela da população que não é só desassistida, mas ignorada (ou era). Agora com o Consultório de Rua em Teresina as pessoas que, por algum motivo, não tem onde morar podem contar com alguns profissionais que favorecem o acesso aos serviços de saúde, dentre eles uma enfermeira, uma assistente social e três redutores de danos.

O trabalho desses profissionais é de segunda a sexta-feira no turno da tarde, horário onde há maior concentração de MRs, principalmente nas praças centrais da cidade. O foco central da ação é a tentativa de minimizar os prejuízos causados pela situação vivida pelos MRs e nesse contexto os profissionais procuram estabelecer uma relação de confiança através do cuidado como, a realização de curativos, oferta de água potável, entre outros, sem deixar de abordar questões importantes de saúde. O sexo seguro e o não compartilhamento de agulhas e seringas entre os usuários de drogas são exemplos de intervenções educativas.

Há quem diga que o MR está nesta condição por escolha própria e em alguns casos isso é verdade. Muitos são usuários de drogas pesadas e perderam suas casas, famílias e a própria identidade. Mas, durante nossa conversa, a enfermeira da equipe relatou que alguns pacientes já estão em tratamento no CAPS ad e tem até casos de reencontros familiares, mostrando resultados positivos do trabalho realizado.

O Consultório de Rua é um projeto apoiado pelo Ministério da Saúde e nasceu no final da década de 1990 em Salvador, para atender pessoas em situação de risco e vulnerabilidade social, principalmente crianças e jovens usuários de álcool e outras drogas. A abordagem utilizada foi inspirada em uma ONG chamada Médicos do Mundo, cujo lema é: “lutamos contra todas as doenças, até mesmo a injustiça”.

Os profissionais do Consultório de Rua acabam tendo mais do que um trabalho, uma missão; onde a reinserção social ganha uma dimensão gigantesca, não apenas na melhoria da cidadania e da qualidade de vida, mas dando vida a quem inexiste como cidadão.

Sei que há um muro alto erguido entre essa pequena parcela da população e os profissionais da saúde do SUS, mas sei também que devemos transpor essa barreira. E para aqueles que gostam de desafios a provocação está feita e para os que já estão na linha de frente uma salva de palmas!

O dentista Lucas Sá dando orientações de higiene oral para um ilustre desconhecido

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