"Sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino."

Paulo Freire

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Trabalho Voluntário

Iniciei dia 10 de agosto um trabalho como dentista voluntária no Centro Integrado de Educação Especial (CIES) que fica próximo à Maternidade Dona Evangelina Rosa em Teresina. A intenção é, dentre outras, oferecer um tratamento odontológico de qualidade colaborando com a dentista Regina Fernandes no atendimento de pacientes portadores de deficiência que freqüentam o centro. O CIES conta com a parceria da Universidade Federal do Piauí através do PROSBE (Programa de Promoção para Saúde Bucal de Pacientes Especiais) sob a coordenação da Professora Dra. Regina Mendes.

Gostaria de fazer uma reflexão inicial sobre o "politicamente correto" tão presente em nosso meio. Quando falo de pacientes com deficiência, fico cheia de dedos buscando uma forma "não ofensiva" para me reportar a essas pessoas que já foram chamadas de debilóides, mongolóides, loucos, doidos, retardados, passando para deficientes, portadores de deficiência e chegando finalmente aos portadores de necessidades especiais. Será que vai parar por aí? Acho que não. Tem até pesquisa científica sobre como classificar "essas pessoas".

Quantos estratos essa sociedade precisa ter? Será que essa parcela a qual me refiro não pode ser chamada simplesmente de gente? Na minha opinião, quanto mais classificamos, mais nos distanciamos, mais enfatizamos as diferenças. Pra que tudo isso?

Algum estudioso no assunto pode até tentar me convencer que é para dar uma assistência mais individualizada, mais humana. Então tá. E como explicar o fim dos hospitais psiquiátricos mantidos pelo estado? Se essas pessoas podem viver na sociedade sem um atendimento específico, então pra que estigmatizar? Pra que buscar um nome "bonito"? Basta chamar de gente. Por que uma pessoa deve ser chamada de especial se nada tem de especial em estudar na escola pública regular, com professores despreparados, mal remunerados e espaço físico inadequado?

Isso tudo pra mim ecoa como uma tremenda demagogia. Tenho me dado conta disso desde que comecei a trabalhar no CIES. Quem se preocupa em encontrar uma forma não ofensiva de tratar pessoas com deficiência, nunca trabalhou ou conviveu com elas. Ofensa é sentir pena. Ofensa é não ter um serviço de saúde que atenda integralmente, é não ter um transporte público eficiente, é não ter ensino de qualidade. Ofensa é oferecer a essas pessoas migalhas ou caridade. Ofensa é tratá-las como se o artigo 5º da Constituição não existisse pra elas.

Vivemos em um mundo onde derrubar uma árvore ou matar um bicho é crime inafiançável, mas fechar hospital psiquiátrico e "jogar" os deficientes no ensino regular é inclusão. Fala sério! Eu sou a favor da inclusão sim, mas com responsabilidade, com qualidade. Será que um pai ou uma mãe entregaria seu filho "normal" pra um dentista cortar o cabelo dele? E um barbeiro fazer uma restauração no dente, deixaria? Claro que não, por um motivo bem simples: eles não foram preparados para tal.

Não é fácil atender um paciente com paralisia cerebral, que não tem controle sobre seu movimentos, que apresenta vários espasmos musculares. Mas se a universidade na qual eu me formei tivesse essa disciplina? Se tivesse especialização gratuita ou mais acessível? Se tivesse um serviço equipado? Talvez nem estaria escrevendo este texto. Talvez essas ONG's oportunistas nem existissem. Talvez esses pacientes não estariam a mercê de associações criadas por pais que se unem em torno de um sofrimento comum: a falta de atenção digna e de qualidade.

Ainda vamos falar muito sobre esse assunto no blog. Quero fazer parte de uma corrente que acredita num mundo melhor, entendendo que todos somos diferentes e que estas nuances é que nos fazem ser especiais e únicos. E o grande desafio é saber lidar com essas diferenças!

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